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Fita cassete emocional

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 14/07/2025 às 08:03:32

Ficar parada no trânsito tem um quê de castigo coletivo. Ninguém queria estar ali, mas estamos todos juntos - separados por lataria, impaciência e o ar-condicionado tentando compensar o sol a pino.

É um fim de tarde, e ônibus está cheio, e o trânsito parado. As pessoas se espremem em silêncio, cada uma perdida em seu cansaço, no calor abafado, nos minutos que não passam. Eu, sentada perto da janela, com os fones no ouvido, tentando encontrar um pouco de paz no caos.

A música começa. Não qualquer música. Aquela. Uma que eu não ouvia fazia tempo, mas que reconheci nos primeiros segundos, como se ela tivesse me esperando esse tempo todo. Era de uma fase antiga da minha vida e, de repente, o ônibus deixou de estar preso na avenida e passou a rodar por dentro de mim. A lembrança veio sem pedir licença. Eu, mais nova, num outro lugar, com menos pressa e mais sonhos.

A paisagem do lado de fora é monótona: carros parados, buzinas impacientes, o céu tentando escurecer sem pressa. Mas dentro de mim, há movimento. A música me conduz por corredores antigos, por versões esquecidas de mim mesma, por histórias que não contei pra ninguém - ou que contei, mas ninguém escutou direito.

É engraçado como no ônibus, no meio da bagunça, a gente pode acessar silêncios tão profundos. O sacolejo do coletivo, o aviso automático de “próxima parada”, o cochilo do moço do meu lado - tudo vira cenário para um filme que só eu assisto, com trilha sonora escolhida pelo acaso do Spotify.

A música muda. Outra começa. Agora é uma que ouço com frequência. Mas com o corpo ali parado, sem a distração da pressa, até ela ganha outro sabor. Vira pergunta. Vira saudade. Vira vontade de ligar pra alguém que faz tempo que não ouço. Mas não ligo. Guardo só o pensamento.

Quando o trânsito finalmente anda, a mágica se desfaz devagar. Volto pra cidade, pro calor, pro meu destino. Mas algo ficou ali, grudado na música, no vidro da janela, no fone barato: a lembrança de que a gente também viaja pra dentro, mesmo que seja só entre um ponto e outro.

E às vezes, é dessas viagens que mais precisamos.

Até o próximo texto!

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