Tem gente que vive no modo provisório como quem mora de aluguel emocional: não desfaz as malas, não encara reforma, não troca fechadura. Mantém tudo “por enquanto”, à espera de um momento ideal que nunca chega.
Aproxima com uma mão e afasta com a outra. Escreve declarações no domingo e some na segunda. Morre de medo de perder, mas tem pavor absoluto de ficar – porque ficar exige escolha, exige coragem, exige parar de correr da própria sombra.
Essas pessoas acreditam que a vida é paciente, que o afeto se guarda numa geladeira afetiva e se consome depois sem estragar. Que quem vale, volta. Que quem ama, espera. Só se esquecem de um detalhe simples: as pessoas ainda têm prazo de validade do lado de fora.
A confusão emocional se disfarça bem: às vezes aparece com polidez – “preciso de espaço”. Noutras, com filosofia – “não sei o que quero”. E, no modo covardia máxima, com fatalismo – “agora não é o momento”. Tá aí uma desculpa aceitável para muitos ouvidos, mas é péssima como futuro.
Enquanto o indeciso não se move, alguém inteiro tenta preencher o vazio que sobra.
Ajusta expectativas, oferece colo, paciência e até um pedaço de si. Mas carregar o peso de dois cansa. E quando o cansaço chega, o encanto vai junto.
Pessoas incríveis não são infalíveis. Têm medo, tropeçam, mas seguem adiante. Elas escolhem, se comprometem e ficam – mesmo tremendo. Já o confuso trata o amor como ensaio. Ensaiam sentimento, futuro, presença. Mas quem só ensaia nunca entra de verdade em cena.
Aí chega a ironia: quando finalmente decidem entrar, descobrem que a porta está fechada. Não é tragédia, é consequência por demorar demais.
Perde-se o extraordinário por motivos banais: falta de gesto, coragem tímida, eternas reticências. Não pense que acredito que a certeza vem desde o início, mas é necessário ao menos querer estar.
A vida costuma ser generosa com os inteiros. Com os confusos, ela é didática: pessoas incríveis caminham e seguem adiante. E o silêncio que sobra depois é um eco tardio de tudo o que poderia ter sido.
Se tivesse sido vivido, e não apenas cogitado.
No fim, é simples: quem não faz acontecer, assiste acontecer sem si.
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