Eu sempre fui obcecada pelo tempo. Não o tempo dos relógios, dos calendários pregados na parede ou dos compromissos marcados no celular. O tempo que me hipnotiza é o outro, esse que se infiltra na vida e define o que fica e o que escapa.
Guardo datas como quem coleciona pequenas provas da própria existência: o dia em que comecei um trabalho, a manhã em que senti que algo terminou, o instante em que percebi que eu já não era a mesma. Aniversários silenciosos que só eu sei, e que me acompanham feito lembretes internos: você esteve ali, você viveu aquilo.
Durante muito tempo, achei que o valor das coisas se media pela durabilidade. Se durou, valeu. Se acabou, era falho. Como se o tempo fosse uma espécie de selo de aprovação universal.
Mas descobri que ele não tem esse emprego. Ele passa e só. E, enquanto corre, nos deixa com a tarefa de interpretar o que vivemos.
Já vi episódios breves deixarem marcas profundas, enquanto longos períodos perderam o brilho antes mesmo de terminarem. Já entendi que o que conta não é quantas voltas o ponteiro deu, mas o quanto eu estive presente enquanto ele girava.
Continuo lembrando datas — hábito difícil de desaprender — mas, hoje, faço isso com mais ternura. Não para prender o que foi, mas para reconhecer que existiu. Cada marco, cada início e cada fim, funcionam como pequenos marcos de território: aqui algo começou a mudar; ali algo se despediu; acolá eu virei outra.
E, se você me permite um conselho de quem ainda aprende: não espere o calendário oficial te dizer quando celebrar ou encerrar capítulos. Crie seus próprios marcos. Dê nome aos começos. Assine suas despedidas. O tempo não vai se importar com isso, mas você vai.
Até o próximo texto!
@portal.eurio