TOPO - PRINCIPAL - CARNAVAL 2026 NITERÓI - 1190X148
TOPO - PRINCIPAL - BOM PAGADOR - 1190X148

Eu estive aqui

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 02/02/2026 às 09:59:32

Há quem torça o nariz para livro usado. Dizem que vem com cheiro de mofo, lombada cansada e um passado que não nos pertence. Eu desconfio justamente do contrário: livro novo ainda não foi interrompido. É bonito, íntegro, mas só vira história quando alguém ousa entrar.

Livro de sebo não chega sozinho. Ele vem acompanhado. Traz alguém que já esteve ali antes de nós — alguém que sublinhou, dobrou a página, escreveu um “não concordo” à margem ou desenhou um coração num parágrafo improvável. Ler um livro usado é aceitar essa companhia quieta. É sentar no cinema ao lado de um desconhecido que reage antes da gente às cenas mais importantes.

O mais curioso é quando discordamos. Você lê uma frase sublinhada com devoção por alguém que passou ali antes e pensa: “sério que foi isso que te pegou?” E, sem perceber, começa um diálogo tardio, impossível, mas estranhamente íntimo. O livro vira espaço de conversa. O autor apresenta o assunto, o leitor anterior opina, e você rebate em silêncio. Três pessoas conversando sem jamais se encontrar.

Há também as dedicatórias. “Para Maria, no seu aniversário de 2009.” E pronto: Maria envelheceu, o livro mudou de mãos, o afeto virou passado — e nós estamos ali, folheando o que sobrou. Não é melancolia. É realidade impressa. Tudo circula, inclusive as histórias que achávamos definitivas.

Eu gosto de saber onde alguém parou para pensar, onde respirou fundo, onde achou que tinha entendido tudo e provavelmente não entendeu. As margens revelam mais do leitor do que o texto revela de si mesmo.

Livro de sebo ensina uma lição discreta: nenhuma leitura é definitiva. Cada leitor acrescenta algo invisível, mesmo quando não escreve nada. Chegamos com nosso tempo, nosso humor, nossas urgências. Ainda assim, lemos. Ainda assim, sublinhamos de novo. Talvez para dizer: eu também estive aqui. Talvez para não passar ilesos.

No fim, ler as marcações de outro leitor é aceitar que a literatura não termina na última página. Ela continua no gesto de quem leu, na frase que alguém achou importante demais para deixar escapar, no silêncio que ficou entre uma linha e outra.

E quando fechamos o livro — usado, vivido, marcado — dá vontade de acrescentar algo também. Nem que seja um traço torto na margem. Não para disputar espaço com quem veio antes. Mas para avisar, com educação, que passamos por ali. E que, de algum jeito, fomos lidos também.

Até o próximo texto!

@portal.eurio

https://www.instagram.com/annadominguees/

https://www.wattpad.com/user/AnnaDominguees

POSIÇÃO 2 - DOE SANGUE 1190X148
POSIÇÃO 2 - DENGUE1190X148
POSIÇÃO 2 - VISITE O RIO - 1190X148
POSIÇÃO 3 - DENGUE 1190X148
Saiba como criar um Portal de Notícias Administrável com Hotfix Press.