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Manual de uso da fantasia

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 16/02/2026 às 09:45:24

Na infância, fantasia era um direito inegociável. Bastava um lençol amarrado no pescoço para que a gente salvasse o mundo antes do jantar. Uma toalha virava vestido de gala. Uma caixa de papelão, nave espacial. Não havia constrangimento, nem ironia, nem essa necessidade adulta de explicar que “é só uma brincadeira”. Era sério. Profundamente sério. A gente acreditava.

Depois crescemos — e crescemos tanto que começamos a desconfiar de tudo que não tem nota fiscal. Fantasia passou a ser sinônimo de fuga, ilusão, imaturidade. “Põe os pés no chão”, dizem. Como se o chão fosse sempre um lugar mais nobre do que o céu.

Mas chega o Carnaval e lá estão todos: discretos executivos, mães exaustas, estudantes cronicamente cansados, vestindo o que nunca ousariam numa quarta-feira comum. As fantasias voltam. E com elas, uma pergunta inquietante: quem você seria se não tivesse que sustentar a própria biografia o tempo inteiro?

Talvez a fantasia não seja sobre virar outra pessoa. Talvez seja sobre aliviar o peso de ser a mesma todos os dias.

A vida adulta exige uma coerência meio cruel. Você escolhe uma profissão e precisa sustentá-la. Escolhe um amor e precisa defendê-lo. Escolhe uma opinião e precisa argumentá-la até o fim do jantar. Tudo é muito definitivo. Muito responsável. Muito você.

A fantasia, ao contrário, é intervalo. É vírgula. É a permissão temporária para experimentar uma versão alternativa de si — mais leve, mais exagerada, mais colorida ou mais ousada. E o curioso é que, às vezes, é justamente ali que mora alguma verdade.

Há quem se vista de brilho porque passa o ano inteiro apagado. Há quem use máscara porque anda exposto demais. Há quem escolha personagens destemidos porque, no cotidiano, negocia cada passo com o medo. A fantasia revela tanto quanto esconde.

E não falo apenas da fantasia de lantejoula. Falo daquela que usamos quando dizemos que está tudo bem. Da que vestimos para parecer fortes quando estamos exaustos. Da personagem eficiente que encarnamos no trabalho, da equilibrada que performamos nas redes sociais, da desapegada que fingimos ser no fim de uma relação. Somos atores dedicados de nós mesmos.

Talvez o Carnaval só tenha a honestidade de assumir o que já fazemos o ano inteiro.

A diferença é que em fevereiro há licença poética. A fantasia deixa de ser mecanismo de defesa e vira celebração. E isso muda tudo. Porque fantasiar-se, no fundo, é experimentar possibilidades. É lembrar que a identidade não é um contrato vitalício, mas um rascunho em permanente revisão. A rigidez nos dá segurança; a imaginação nos dá fôlego.

Numa segunda-feira de Carnaval, enquanto o país decide se volta à planilha ou prolonga o bloco, talvez valha a pena guardar uma coisa: não precisamos esperar fevereiro para flexibilizar quem somos.

A fantasia não precisa de glitter. Pode ser apenas a coragem de tentar diferente. De conversar com quem evitamos. De mudar de ideia. De dançar fora do ritmo habitual.

Crescer não deveria significar abandonar o lençol amarrado no pescoço. Quem sabe a sensatez seja justamente saber quando soltá-lo — e quando, discretamente, amarrá-lo outra vez? Até mesmo porque, no fim, todo mundo precisa, de vez em quando, salvar o próprio mundo antes do jantar.

Até o próximo texto!

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