Bolsa de mulher não é só acessório. É território. É biografia ambulante, confissão com zíper, caos com alça. Quem nunca mergulhou no fundo de uma bolsa procurando a chave de casa e saiu de lá com um chiclete, três recibos antigos e um batom quebrado, não sabe o que é viver perigosamente. É um universo paralelo. Lá dentro, as leis da física não se aplicam.
Itens somem, outros surgem do nada. Uma halls de 2019? Tá lá. Um documento importantíssimo que você colocou ontem? Sumiu. E não adianta sacudir. O que se perde na bolsa, permanece na bolsa - em outra dimensão.
Tem gente que acha que a gente exagera no tamanho. Bobagem. Se pudéssemos andar com uma mochila de acampamento nas costas e ainda parecer elegante, a gente andava. Porque cabe tudo - e, ao mesmo tempo, não cabe nada. A garrafinha d'água entra, o guarda-chuva entra, a nécessaire, a carteira, a agenda, o lanchinho da tarde, o remedinho, um livro, o kindle - claro -, a roupa da academia, o plano B da maquiagem, e mais um par de brincos porque vai que o humor muda.
Já tentei organizar a minha. Separar por bolsinhos, compartimentos, lógica. Durou dois dias. A vida não é compartimentada, por que a bolsa seria? A bolsa é viva, se desorganiza com a pressa, com os encontros, com os imprevistos. E tudo bem. Tem espaço para o que importa e também para o que não faz o menor sentido - como aquele ingresso de cinema do filme que fez chorar ou o bilhetinho antigo que você ainda não conseguiu jogar fora.
E trocar de bolsa? Um evento. Você transfere a carteira, o celular, o batom, acha que já foi tudo. Aí passa o dia sentindo falta do absorvente, do remédio para dor de cabeça, a dor que nem reclama, mas carrega. E quando volta pra casa: lá estavam eles, na antiga bolsa, dando risada da sua cara. Por isso que tem mulher que escolhe uma bolsa e vai com ela até o fim. Fidelidade por questão de sobrevivência.
Então não me peça para trocar de bolsa todos os dias. Há uma intimidade ali que não se transfere com facilidade. Minha bolsa sabe mais de mim do que muita gente. Ela guarda segredos, urgências, memórias.
Aguenta meu peso - e meu mundo. E, convenhamos, isso não é pouca coisa. Alguns dizem que mulher carrega a vida nas costas. É verdade. Mas, antes disso, ela carrega na bolsa.
Até o próximo texto!
@portaleurio