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Letras

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 02/03/2026 às 14:52:19

Sou estudante de Letras, prazer. Isso significa que passo os dias analisando vírgulas enquanto o mundo desaba em discursos mal pontuados — e perigosamente bem articulados.

Quando conto o que estudo, a reação quase sempre oscila entre o condescendente e o curioso: “Ah, então você quer ser professora?”

Como se ensinar fosse um plano B da existência.

Ou então: “Nossa, mas Letras… dá dinheiro?”

Não muito. Mas dá repertório para entender quem decide o que vale dinheiro.

Estudar Letras é descobrir que linguagem nunca foi só linguagem. É poder. É enquadramento. É narrativa. É perceber que manchetes não informam apenas — elas conduzem. Que certas palavras são escolhidas com a delicadeza de quem sabe exatamente qual imagem quer produzir.

Na mídia, uma mulher “surta”.

Um homem “perde a cabeça”.

Ela é “emocional”.

Ele é “explosivo”.

O patriarcado discursivo não precisa gritar, ele adjetiva.

E a gente aprende a ler isso. Aprende que a neutralidade muitas vezes é só uma boa maquiagem sintática. Que chamar desigualdade de “polêmica” já é tomar partido. Que dizer “suposto” em certos contextos e omitir em outros não é distração. É estratégia.

Também aprendemos que a norma padrão, essa entidade quase sagrada, tem CEP. Tem história. Tem classe social. Quando alguém ri de um “nós vai”, raramente está defendendo a língua. Está defendendo hierarquias.

Mas calma: eu não ando por aí fiscalizando o português alheio como se carregasse um apito gramatical. Eu só sei que corrigir certas falas é mais fácil do que corrigir certas injustiças — e curiosamente a sociedade escolhe o primeiro com entusiasmo.

A vida acadêmica? Um campo de batalha com cheiro de café requentado e artigos em PDF. A gente debate crase com a mesma intensidade com que outros discutem política — porque, surpresa: é política. Discutir quem está “certo” ou “errado” nunca foi só uma questão gramatical.

A gente lê teoria, desmonta discursos, atravessa séculos e aprende que palavras constroem reputações, reputações constroem verdades, e verdades constroem realidades.

Então quando me pedem para “revisar rapidinho” um texto, eu reviso. Mas talvez eu devolva perguntas junto: por que você usou “ajuda” quando poderia ter usado “direito”? Por que chamou de “opinião” o que é dado? Por que suavizou a violência com uma metáfora confortável? Talvez você não queira saber o que eu penso sobre as palavras que escolheu para falar de “meritocracia”, “empreendedorismo” ou “cidadão de bem”. Linguagem nunca é só estética. É posicionamento.

Sou estudante de Letras.

E se eu implico com palavras, não é por preciosismo. É porque eu sei do que elas são capazes.

A gente pode até estar cansada.

Mas nunca desatenta.

Até o próximo texto!

@portal.eurio

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