Existe um talento curioso que pouca gente admite possuir: o de atrapalhar a própria felicidade.
A gente planeja, se organiza, faz promessas silenciosas: “Dessa vez vai ser diferente”, afirmamos. “Dessa vez eu vou até o fim”, juramos — embora nem saibamos bem para quem. “Dessa vez não vou desistir no meio do caminho.” Será?
E então, quando tudo começa a caminhar, quando a vida parece finalmente colaborar, algo muda de direção dentro da gente. Surge um atraso desnecessário, uma dúvida no meio do entusiasmo.
De repente, lá estamos nós, pisando no freio quando o sinal acabou de abrir.
Não é exatamente medo. Também não é simples falta de coragem. A autossabotagem age de forma discreta. Aparece disfarçada de prudência, de cansaço, de um “melhor esperar mais um pouco”.
E a gente acredita. Vê se pode?
Avançar exige coragem, mas também exposição. Quando algo começa a dar certo, chega junto uma responsabilidade nova, um território desconhecido, uma versão diferente de nós mesmos. E mudar, mesmo quando a mudança é boa, também dá trabalho!
Assim começam os pequenos desvios. Um projeto adiado. Um defeito repentino em algo que antes parecia perfeito. Um motivo qualquer para desacelerar o que já ganhava ritmo.
Somos muito competentes nisso. Fazer o quê?
Transformamos o possível em improvável com uma naturalidade impressionante! Como quem cava um buraco no próprio caminho e depois se espanta com o tropeço.
Há dias em que a vida nem precisa atrapalhar: a gente faz esse trabalho sozinho.
A vida, porém, tem um jeito persistente de ensinar — mesmo quando demoramos para aprender. E com o tempo, certos sinais ficam claros. A hesitação antes de uma decisão importante. A vontade súbita de desistir justamente quando algo começa a dar certo demais. É como reconhecer uma velha conhecida entrando na sala.
A autossabotagem não desaparece — seria exigir demais da natureza humana — mas perde parte da autoridade que tinha antes. A gente passa a perceber o truque enquanto ele acontece.
E isso muda o jogo.
Os tropeços continuam. A diferença é que já não surpreendem tanto. Às vezes, até arrancam um sorriso.
Em algum ponto da jornada, a gente percebe que passou tempo demais lutando contra si mesma. E que talvez já seja hora de mudar de lado.
É interessante olhar para si com mais gentileza. Com mais cuidado. Com menos armadilhas.
E, principalmente, com menos pressa de estragar o que estava começando a dar certo.
Porque o itinerário já se encarrega dos obstáculos inevitáveis.
Não há motivo para trabalhar como assistente do próprio sabotador, convenhamos.
Até o próximo texto!
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