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Babalawô e ativista

Um símbolo da luta contra racismo, intolerância religiosa e desigualdades sociais

Professor Ivanir dos Santos saiu da Favela do Esqueleto para a universidade, os movimentos sociais e os espaços de formulação de políticas públicas


Foto: Divulgação
Há quase cinco décadas, o professor Ivanir dos Santos transformou a própria trajetória em uma luta permanente contra o racismo, a intolerância religiosa e as desigualdades sociais. Babalawô e ativista, ele saiu da Favela do Esqueleto para a universidade, os movimentos sociais e os espaços de formulação de políticas públicas. Em uma entrevista exclusiva ao Portal Eu, Rio!, franca e direta, ele conta um pouco de seus ideais.


Portal Eu, Rio!: O senhor dedica décadas à defesa da liberdade religiosa e ao enfrentamento da intolerância. O que mudou no Brasil nesse período e o que continua exatamente igual?

Ivanir dos Santos: Mudou muita coisa. Hoje existe uma consciência maior de que a liberdade religiosa é um direito fundamental e de que a intolerância religiosa, especialmente contra as religiões de matriz africana, não pode ser tratada como um problema menor ou privado. Avançamos na criação de políticas públicas, na legislação e no reconhecimento da importância da diversidade religiosa. Mas ainda existe algo que permanece: o preconceito. Muitas vezes, ele apenas mudou de forma. Ainda vemos terreiros atacados, símbolos religiosos desrespeitados e pessoas perseguidas por sua fé. O desafio agora é transformar o reconhecimento desse direito em proteção concreta. Liberdade religiosa não pode existir apenas no papel.

PER: Ataques a terreiros, perseguições e episódios de intolerância religiosa ainda fazem parte da realidade brasileira. Onde o Estado está falhando no combate a esse tipo de violência?

IS: O Estado falha quando não consegue prevenir, investigar e punir esses crimes de maneira adequada. Falha também quando trata a intolerância religiosa como um conflito entre indivíduos, ignorando que muitas dessas agressões têm uma dimensão de racismo e atingem comunidades inteiras. Precisamos de políticas permanentes de prevenção, de capacitação das forças de segurança e dos agentes públicos e de mecanismos eficientes para registrar e investigar esses casos. Também precisamos garantir proteção às vítimas e aos espaços religiosos ameaçados. Não basta dizer que a Constituição garante liberdade religiosa. O Estado precisa estar presente quando esse direito é violado.

PER: O senhor defende que a liberdade religiosa precisa ser tratada como uma questão de Estado. Na prática, quais medidas poderiam transformar esse direito constitucional em proteção efetiva para quem sofre intolerância?

IS: Primeiro, precisamos de uma política nacional permanente de combate à intolerância religiosa, com recursos, metas e responsabilidades claramente definidas. É fundamental melhorar o registro e a produção de dados sobre esses crimes para que o poder público saiba onde e como eles acontecem. Também defendo a capacitação de policiais, professores, profissionais de saúde e servidores públicos para reconhecer e enfrentar situações de intolerância. A escola tem um papel essencial na educação para a diversidade e para o respeito às diferentes tradições religiosas. E precisamos fortalecer os canais de denúncia e garantir que as vítimas tenham acolhimento e acesso à Justiça. A liberdade religiosa só será efetiva quando uma pessoa puder professar sua fé — ou não professar nenhuma — sem medo de ser discriminada ou agredida.

PER: O senhor costuma colocar a defesa da liberdade de crença no centro de sua atuação. Que Brasil gostaria de encontrar daqui a alguns anos quando o assunto for respeito às diferentes religiões e também ao direito de não professar nenhuma fé?

IS: Eu gostaria de encontrar um Brasil em que ninguém precise esconder sua fé por medo de sofrer violência ou preconceito. Um país em que uma pessoa possa entrar em uma igreja, uma sinagoga, uma mesquita, um terreiro ou qualquer outro espaço religioso com a mesma tranquilidade com que outra pessoa possa escolher não seguir religião alguma. Quero um Brasil em que a diversidade religiosa seja entendida como parte da nossa democracia, e não como uma ameaça. Um Brasil em que o Estado não tenha uma religião, mas tenha o compromisso de proteger todas as pessoas. Porque liberdade religiosa não é o direito de uma religião contra outra. É o direito de cada cidadão escolher no que acredita — ou escolher não acreditar — e ter essa escolha respeitada.

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