TOPO - PRINCIPAL - 1190X148
TOPO - PRINCIPAL - BOM PAGADOR - 1190X148

O manto sagrado em Milão

Conexão Milão, Por Daniel Camargo, Jornalista

Em 11/09/2026 às 14:36:20

Londres está vivendo uma pequena febre cultural. Nesta semana, o British Museum abriu ao público a exposição da Tapeçaria de Bayeux, o extraordinário tecido de quase 70 metros que, há quase mil anos, narra os acontecimentos que levaram à conquista normanda da Inglaterra, em 1066.


É a primeira vez, desde sua criação, que a peça é exibida na Inglaterra. Uma pesquisa recente identificou 16.445 rugas, 9.646 furos e 30 rasgos. Para transportá-la da França, foi preciso desenvolver uma estrutura especial, com controle de temperatura e umidade e um sistema para reduzir as vibrações.

Funcionou quase perfeitamente. A Tapeçaria chegou à Inglaterra com duas pequenas rupturas em seus fios, de poucos milímetros. Segundo Thalia Bajon-Bouzid, uma das conservadoras responsáveis pela peça, não houve “nenhum dano visível importante”. Agora resta torcer para que a viagem de volta seja mais bem-sucedida.

A história da Bayeux me fez lembrar de outra peça têxtil extraordinária, muito menos conhecida, que está em Milão.

Na Pinacoteca Ambrosiana, ao lado de obras, manuscritos e desenhos de alguns dos grandes nomes da história da arte, está um legítimo manto Tupinambá. A peça passou por um meticuloso trabalho de restauro e conservação, que permitiu recuperar e preservar sua delicada estrutura e, principalmente, o intenso vermelho-escarlate das milhares de penas com as quais foi confeccionado.

A Ambrosiana é conhecida mundialmente pelo Códice Atlântico, a extraordinária coleção de desenhos e manuscritos de Leonardo da Vinci. Os fólios são exibidos em rodízio, em pequenas seleções. Muita gente vai à Ambrosiana para ver Leonardo e segue adiante. Eu resolvi percorrer a coleção com mais calma. Foi assim que encontrei o manto, que eu não sabia que estava ali.

E ele é impressionante. Não apenas pelo trabalho minucioso de sua confecção, mas pela história que está por trás dele.


Os mantos que atravessaram o Atlântico

Os Tupinambá foram um dos povos indígenas mais conhecidos e relevantes do Brasil. Habitavam extensas áreas da faixa litorânea, do Pará até São Paulo, e confeccionavam esses mantos com fibras vegetais e penas de aves, principalmente do guará. Não eram simples peças de vestuário: tinham funções rituais e estavam associados a momentos importantes da vida religiosa e política do povo.

Para os Tupinambá, o manto — ou assojaba — também está ligado aos Encantados, seres e forças espirituais ancestrais que, segundo sua tradição, se relacionam com o mundo dos vivos. São presenças que orientam, protegem e participam da vida do povo.

Com a chegada dos europeus, os mantos passaram a despertar enorme interesse fora do Brasil. Peças produzidas pelos Tupinambá foram retiradas de seu território e levadas para a Europa entre os séculos XVI e XVII. Não se conhece a circunstância de todos esses deslocamentos: alguns podem ter ocorrido por meio de trocas ou presentes, enquanto outros aconteceram em contextos de violência e apropriação. O fato é que os mantos acabaram em coleções reais, gabinetes de curiosidades e, posteriormente, museus.

Onze desses mantos históricos sobreviveram até os nossos dias. Cinco estão em Copenhague, dois em Florença, um em Bruxelas, um em Basileia, um em Paris e um em Milão.

E nenhum em seu país de origem.


O manto volta a falar

A retomada dessa história ganhou um personagem central: Glicéria Tupinambá, artista, pesquisadora, professora e liderança do povo Tupinambá da Serra do Padeiro, no sul da Bahia.

A partir de 2006, ela começou a recuperar a tradição de confecção dos mantos, estudando imagens e exemplares conservados em museus europeus e reconstruindo, junto à sua comunidade, um conhecimento que havia deixado de ser praticado por gerações.

Ela relata também ter recebido orientações dos Encantados através de sonhos. O resultado não são réplicas dos mantos antigos, mas novos mantos, produzidos no Brasil a partir da recuperação de uma tradição que volta a existir no presente.

Essa retomada está registrada em diferentes trabalhos audiovisuais. Quando o Manto Fala e o Que o Manto Diz, dirigido pela própria Glicéria e Alexandre Mortágua, acompanha a criação de um novo manto e seu processo de confecção. Já Eu Ouvi o Chamado: O Retorno dos Mantos Tupinambá, mais uma vez de Glicéria, com codireção de Myrza Muniz e Robson Dias, acompanha sua pesquisa pelos mantos que permanecem em museus europeus e a busca por seu retorno ao Brasil.


O bom manto à casa torna

A partir dos anos 2000, ganhou força entre os Tupinambá o movimento pela recuperação dos mantos históricos. Para as comemorações oficiais do quinto centenário da chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral ao litoral brasileiro, um exemplar do Museu Nacional da Dinamarca foi emprestado ao Brasil para a exposição Brasil + 500. Foi uma oportunidade inédita para representantes Tupinambá entrarem em contato direto com um desses mantos depois de séculos.

A peça, um dos mantos mais antigos conhecidos, permanecia na instituição havia mais de três séculos. Seu primeiro registro nos arquivos dinamarqueses é de 1689.

Em 2024, depois de um processo de diálogo entre representantes Tupinambá, instituições brasileiras e dinamarquesas, o Museu Nacional da Dinamarca decidiu doar o manto ao Brasil. Ele chegou ao Rio de Janeiro em julho daquele ano e foi destinada ao Museu Nacional, o mesmo que havia sido devastado pelo incêndio de 2018 e que ainda reconstruía suas coleções. Dois meses depois, em setembro, cerca de 170 Tupinambá participaram, no Rio, de uma cerimônia relacionada ao retorno do manto.

Foi o primeiro dos onze mantos históricos a retornar ao Brasil. O primeiro e o único. Dez ainda continuam em coleções europeias e um deles é o que encontrei na Ambrosiana.

E talvez o mais curioso seja justamente isso: tanta gente chega à Ambrosiana procurando Leonardo da Vinci e se surpreende com outras obras de artistas como Caravaggio, Rafael, Botticelli, Ticiano, Francesco Hayez e tantos outros. Se for brasileiro, terá uma satisfação ainda maior ao encontrar ali uma parte da nossa história.

Agora que você sabe que o manto está lá, pode visitá-lo. Caso um dia ele volte ao Brasil, sabemos que será possível transportá-lo com segurança. Talvez, quem sabe, até de maneira melhor do que a Tapeçaria de Bayeux.

POSIÇÃO 2 - DOE SANGUE 1190X148
POSIÇÃO 2 - DENGUE1190X148
POSIÇÃO 2 - VISITE O RIO - 1190X148
POSIÇÃO 3 - DENGUE 1190X148
Saiba como criar um Portal de Notícias Administrável com Hotfix Press.