Está em cartaz nos cinemas o filme “Um lobo entre os cisnes”, dirigido por Marcos Schechtman e Helena Varvaki, que conta uma parte da trajetória do bailarino Thiago Soares. Para a coluna “Dança além das fronteiras” interessa pensar alguns aspectos da dança dentro da narrativa proposta pela equipe.
Clássico e popular: uma luta
É sempre importante perceber a primeira e a última cena de um filme. “Um lobo entre os cisnes” abre com uma cena de hip hop numa piscina desativada, toda grafitada (aparentemente a do edifício Raposão, em Santa Teresa). O espectador vê a nuca do protagonista, que olha os colegas dançando. Ele logo se joga na dança também, mas, essa primeiríssima tomada nos diz que há algo de contemplativo nesse protagonista, ele analisa a própria trajetória e, ali, é o começo do que ele quer nos contar.
Thiago (Matheus Abreu) não está no mesmo nível de experiência que seus colegas de dança, tanto que o coreógrafo/treinador de hip hop (Alan Rocha) o deixa de fora da “apresentação em Madureira” sob o argumento de que Thiago “não tá pronto ainda”. O roteiro (Camila Agustini) nos dá, portanto, a dica de que se trata de uma narrativa de aprendizado e superação, baseada no conflito entre audácia juvenil e orientação de mestres.
A primeira imagem que concretiza o “corpo do lobo” diante do “corpo do cisne” se dá na primeira vez que Thiago entra numa escola de formação em dança clássica e ouve a área da Fada Açucarada, de “O Quebra-Nozes”. Ele vê Germana (Giullia Serradas) que, pálida e magra, parece uma mocinha do Romantismo do século XIX, prestes a desvanecer nos braços de um príncipe, quer dizer, a síntese do balé clássico (mais tarde ela será chamada de “a mais certinha”, confirmando). Ali estão em confronto o aterramento das danças populares e o ideal da dança clássica. Uma para a terra, a outra para os céus.
O personagem, então, começa uma luta entre os dois mundos (os dois corpos), entre a disciplina do balé (ao som da “Valsa nº2”, de Shostakovich) e certa informalidade e uma garrafa de cachaça, na dança urbana (ao som de “Chuck Berry”, de Black Alien).
É então que vem a chave para entender a trajetória de Thiago Soares (da perspectiva do roteiro): na primeira cena de Dino Carrera (Darío Grandinetti), aquele que será o principal mestre do protagonista diz algo como “quem não sabe escutar, não pode dançar”. O filme é sobre a escuta, já que Dino não está se referindo apenas à escuta do tempo da música, mas à abertura para a escuta do espaço externo e interno (que é um aprendizado de vida para todos nós).
Mestre e discípulo em pas de deux
Partindo do título, o espectador pode pensar que o filme segue dois recortes, um de classe e um de gênero. O primeiro, tendência dessa década, seguiria na derrisão do mundo eurocentrado do balé e na exaltação da cultura da favela: os cisnes apareceriam como uma classe burguesa decadente e ridícula sob o olhar das classes populares. O segundo recorte, mais anacrônico, porém bastante presente na história do cinema, se apoiaria na “dignidade” do heterossexual (o Thiago da vida real) sobre a malícia do homossexual (a maior parte dos bailarinos): os cisnes não seriam fortes como o lobo e, assim, fariam coro para esse protagonista.
Sabiamente, o filme traz a figura de Dino Carrera como formador de Thiago. De fato, o protagonista sola sobre um corpo de baile de mulheres e gays e, também, “deixa” a cultura da favela para se dedicar prioritariamente à cultura europeia. Dino, entretanto, é quem viabiliza uma formação para que o jovem faça suas metamorfoses. O mestre aparece em cenas dentro de uma sauna gay e lida com a questão da AIDS (que é, inclusive, a camada mais profunda de afeto do protagonista, no filme).
Essa relação de confiança entre Dino e Thiago traz sofisticação à narrativa do artista. Não apenas o mestre conduz o processo de aprendizado, mas o próprio mestre é colocado no lugar de aluno rebelde diante dos imperativos da doença. Ambos ficam completamente vulneráveis e, ao mesmo tempo, completamente conectados.
A cena da famosa “Variation d’Ali” de “O Corsário”, que Thiago dança no Palais Garnier, é entrecortada com uma condução “à distância” de Dino para os soutenus en arabesque, jetés e fouettés. Esse pas de deux imaginário entre mestre e aluno culmina pelo imperativo do verbo “voar”, em espanhol: “Vuela!”. Mesmo para quem não dimensiona o vigor e a dificuldade técnica dessa área é emocionante.
Há, ainda, um outro pas de deux entre os dois que não pode ser ignorado porque se dá ao som de “Oye como suena”, de Pio Leyva que harmoniza com a frase “quem não escuta, não pode dançar”, do início. Ali está a origem cubana de Dino Carrera, a origem (sub)urbana/popular de Thiago Soares. Ali está a alegria de dançar em parceria.
Destaques
Não vou comentar a última cena para que as pessoas vão às salas prestigiar nosso cinema nacional. Posso dizer que a direção de fotografia (Pedro Faerstein) encontrou movimentos e trovões lindos.
Vale, também, lembrar da direção de arte (Dina Salem Levy) para a escola de dança dos anos 90, que lembra (afetivamente) os corredores de escolas como Maria Olenewa, CDRIO e Bertha Rosanova, nos anos 80. Qual escola não tinha uma placa “sala Tatiana Leskova”?
Não sei se houve coaches, mas a direção de ator está muito bem afinada com o elenco, ninguém está mal. Desde um ator da grandeza de Darío Grandinetti, da experiência de Augusto Madeira e a polivalência de Alan Rocha, passando pela precisão de Margarida Vila-Nova, chegando, finalmente, no elenco jovem de atores e bailarinos, todos desempenham texto e imagem muito bem. O protagonista consegue mostrar a trajetória da postura “largada” e da força do hip hop para a verticalidade idealizada do balé, e passa pelas emoções propostas utilizando bem os recursos físicos.