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Pernas e palavras em torno do centro de gravidade: O Grupo Tápias dança “Reza”

Dança Além das Fronteiras, Por Cláudio Serra, Professor da Escola de Teatro da UniRio

Em 02/09/2025 às 07:13:52

Encerrando a 23ª edição do festival “Dança em Trânsito”, o Espaço Tápias recebeu work in progress “Reza”, do Grupo Tápias, que vem fazendo apresentações pelo território brasileiro e em solo estrangeiro.

A fé pede ritual. O ritual precisa de materialidade para invocar o mundo imaterial. O transporte concreto que traz o imaterial, por meio do corpo humano, ao ritual, é a reza. Reza é transporte.

Não se pode dizer que a palavra “reza” é rasa. Reza não é rasa. A palavra possui tantas camadas, sobretudo num país onde a fé não só aparece espontaneamente no cotidiano, mas também é obrigatória (e nessa obrigatoriedade há uma grande construção de séculos). A reza é o veículo da fé, ao ponto de, no Brasil, a princípio um país laico, um candidato à presidência da república não ser eleito se não invocar Deus e não rezar com seu povo.

Nessa perspectiva, Flávia Tápias introduz o espetáculo entrando em cena e tocando o chão com a palma da mão. Coloca uma rosa vermelha no solo e dá “cascudos” nesse mesmo chão, como um chamado, acordando forças do palco. A rosa vermelha, que tem uma gama de simbologias religiosas em nossa cultura, fica por terra, enquanto a bailarina se põe de pé e leva a mesma palma da mão ao topo de sua cabeça. O que está em cima, está embaixo. Há piso e concretude, mas há, também, verticalidade e céu.


Contágio

Um elemento bastante importante na cena é o encontro com o outro. Isso pode acontecer por meio do toque, do apoio corporal, do contato visual, da palavra falada. Flávia Tápias abre essa dimensão de contato ao olhar para cada espectador e tocar algumas mãos, beijar, abraçar. Ao interromper sua coreografia, ela pede que a música pare e a iluminação se neutralize. Assim, ela pode falar diretamente à plateia sobre sua compreensão da reza.

Ao longo das coreografias, a relação de contato e apoio ganha substancialidade no terreno da reza. Vemos corpos se apoiando. Apoio sobre a perna, apoio para o salto no ar. A reza amorosa aparece como segurança em meio à vulnerabilidade da queda, do ferimento. São mãos que se tocam, trazendo equilíbrio entre os dois corpos fora do eixo. Outras que sustentam a queda de costas.

Na última coreografia, ao som de Rita Lee, o contágio é revelado com leveza e humor. Os gestos de um bailarino contagiam os gestos do outro e o jogo acontece.


Humor

Se o espectador, ao ler o título do espetáculo e ao ouvir, na primeira coreografia, Maria Rita cantando a música de mesmo título, tem a impressão de que se trata de uma dança apenas emotiva e respeitosa com alguma religião, se engana. Há muito humor, talvez mesmo na maior parte do trabalho em progresso.

A comédia é um elemento importante da encenação. Ela acontece, sobretudo, no uso da palavra. Seja na voz off do ator dando seu depoimento a respeito de suas superstições, seja na própria Flávia tomando a palavra ao vivo. Mesmo o figurino joga humoradamente com a fé não assumida do ator, que só entra em cena de cueca branca, e veste todo o elenco com meias e cuecas brancas.

Mas, ainda há uma camada menos evidente do humor, que está nas contradições. Quando Flávia está no alto, suspensa no ombro de Roberto Silva - testando equilíbrio, força, leveza, suspensão -, ela verbaliza algo como "morro de medo altura". Durante toda essa coreografia, ela tem um jorro de palavra, enquanto seu companheiro permanece calado do começo ao fim. O próprio discurso do humorista, que tenta negar a fé e encontrar outras palavras, como “aposta”, fala o tempo todo de crença, pedido e agradecimento, quer dizer, os elementos que constituem a fé.

Visto que o trabalho está in progress, acredito que seria interessante buscar, ainda um equilíbrio entre o texto (com seus humores) e a seriedade da entrega amorosa. Isso poderia se dar, por exemplo, no pas de deux de Letícia Xavier e Agustin Salcedo. Antes, durante e depois, há comédia por meio das palavras, então, talvez, o corpo possa mergulhar mais profundamente na entrega (trágica) que é se misturar a um outro. Digo isso porque ambos são excelentes bailarinos, os corpos são vigorosos e musculosos, não parece haver limites para as experimentações técnicas nos dois. Por isso, há uma abertura para experimentar a expressão. Aquele lindo arabesque derrière de Salcedo pode ser mais preenchido de pedido, de dor, de agradecimento, ou de vulnerabilidade diante do outro. O mesmo para as pernas de Xavier, que fazem lindos ronds em muitas direções. Misturar-se requer entrega e contaminação, ninguém sai ileso.

Também, quando a fala ao vivo deixa de ser o domínio apenas de Tápias e é compartilhada com todo o elenco, que fala ao mesmo tempo, acredito que cada um pode tentar estabelecer uma relação mais concreta com o público, falar realmente para uma pessoa, para ser ouvido em meio ao caos sonoro. Que três, ou quatro, espectadores se concentrem em um bailarino e consigam absorver algo sobre suas superstições.

Espaço

A nudez cenográfica, preenchida pela iluminação e pela trilha sonora, serve para evidenciar o corpo no espaço, ou melhor, o corpo como elemento do espaço. Vejamos:

Flavia Tápias, por ser longilínea, revela a estrutura da caixa cênica (paralelas, perpendiculares, diagonais), seu corpo parece ministrar uma aula de geometria descritiva.

Letícia Xavier tem uma precisão "elétrica". O corpo extravasa o limite e gera estremecimentos (finalizados pelos cabelos). Os cabelos, inclusive, por caírem sobre os olhos, retiram o caráter figurativo da bailarina e permitem que o espectador veja a estrutura abstrata.

Paula Fernandez possui uma calma para finalizar o gesto. Seu movimento vai até o fim. Se fossem palavras, ela seria aquela palestrante que não tem timidez para falar até a última sílaba da última palavra.

Augustin Salcedo tem uma caixa de força muito potente que lhe permite partir do plano baixo, ao alto, em um segundo, sem que o espectador veja o plano médio. Monta em posições com beleza e consegue “desabar” com muita segurança.

Roberto Silva traz uma doçura na finalização do movimento. As extremidades aparecem, mesmo nos movimentos mais alongados, quando vemos sua elasticidade. Revela, também, atenção e cuidado na relação com o corpo do outro.

O figurino trabalha como pinceladas vermelhas numa tela vazia. O neutro dos tons bege ganha tecidos avermelhados, como respingos de vinho tinto sobre a carne. O figurino aponta, portanto, para a vida, a paixão. Não há neutralidade sem desequilíbrio.

As curvas dos corpos se chocam com as retas da caixa cênica. Os movimentos curvos se destacam porque remetem à condução: pernas e troncos que circundam o centro de gravidade. Há abdômen-períneo-assoalho pélvico, que sustentam muito claramente o transporte dos membros no ar. É a reza não apenas como força, mas como eixo.

Que venham temporadas de “Reza” no Espaço Tápias!

Ficha técnica

Coreografias: Flávia Tápias

Intérpretes criadores: Flávia Tápias, Leticia Xavier, Augustin Salcedo e Roberto Silva

Fotografia: Fernanda Valois

Desenho de Luz: Luiz Paulo Neném

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