Uma apresentação solo, no Teatro Dulcina, aponta para uma temporada próxima de uma performance-dança intitulada “O Invisível”, do bailarino Ednei D’Cont. A criação performática tem origem no processo afetivo do artista diante da Doença de Alzheimer de seu pai. Na autoficção há sempre uma transitoriedade entre a biografia e a construção. A cena é construída da memória do filho e da memória do artista: é verdade e é cena. A verdade é a cena.
Lacunas paternas
A figura do pai, bastante explorada pela psicanálise, é tema do testemunho autobiográfico de Sibylle Lacan (“Um pai”). Ali, ela fala sobre silêncios e ausências desse pai tão presente na vida dos que se interessam pela psicologia, um pai tão presente e falante nas teorias psicanalíticas, mas que produziu tantas lacunas em si. É próprio do processo psicanalítico a palavra falada, então esses silêncios são, no livro da filha de Jacques Lacan, explorados por meio da linguagem oral/escrita. Em “O Invisível”, Edney D’Cont caminha pelos silêncios paternos sem palavra falada, o corpo no espaço torna-se corpo-espaço-tempo, fala sem pronunciar com a boca.
O Alzheimer ainda é um terreno tão novo em nossas vidas que andamos em um campo cheio de hipóteses, cheio de conclusões (ainda) invisíveis. Dessa maneira, o “invisível” do título joga tanto com o adjetivo (um pai invisível, um filho invisível, sutilezas invisíveis do amor paterno-filial), quanto com o processo de invisibilização dos afetos: o invisível como movimento.
Assim, o (que eu chamo) “segundo bloco” da performance, quando há música em off, de base eletrônica, explora movimentos corporais repetitivos. Por um lado, há repetição como forma: um repertório restrito de movimentos é reprisado constantemente. Por outro, a repetição é tema: um movimento de passo, uma caminhada que vai e volta; um antebraço que gira em torno da orelha e da lateral da cabeça, um ciclo que se repete.
A carga afetiva emerge do esforço físico: a água sai corpo e pinga, escorre pela cabeça e pelas mãos do bailarino. Ednei está indicando que ser filho requer esforço, mas também mostra que nessa trajetória de perda gradativa do corpo do pai, há ganho afetivo, há uma trajetória de reconhecimento da paternidade.
Nesse terreno, chama atenção o branco. A cor branca é protagonista no espaço cênico. “Dar branco”, expressão popular que significa “esquecer”, sugere a lacuna do esquecimento, do silenciamento. Sugere, ao mesmo tempo, a neutralidade da página em branco. Há, inclusive, páginas brancas que são sutilmente jogadas da mesa, na lateral esquerda do palco, pelo performer. Papel branco a ser preenchido com memória. O filho conta o pai, o artista conta o filho.

Mar de barcos
O palco do Dulcina está tomado de barquinhos de papel branco. São muitos mil. Tanto que a iluminação é transformada por eles: a caixa cênica de veludo preto absorve a luz, ao passo que o chão, com esse mar de barcos, reflete a luz dos refletores, proporcionando um clarão de baixo para cima no corpo do performer. Os barquinhos são feitos, necessariamente, de maneira artesanal e esse trabalho manual dialoga tanto com os gestos das mãos e dedos de Ednei, quanto com as mãos do acordeonista Matheus Queiroz.
O acordeão, que aparece no (que eu chamo) “primeiro bloco” do espetáculo (e que volta para encerrar o “terceiro bloco”), oferece um som orgânico, artesanal, produzido ao vivo pelas mãos do músico. Ednei, por sua vez, traz um corpo menos tradicional da dança contemporânea (do que no “segundo bloco”) e mais gestual. A sutileza dos gestos se harmoniza com o cuidado que ele parece ter para tratar do tema de sua performance. São mãos que ganham expressividade, dedos que desenham no ar, um corpo explorando os diferentes planos e revelando o espaço duro da arquitetura teatral, no diálogo com as curvas dos movimentos do corpo.
Os barquinhos em acumulação, num primeiro momento, remetem ao brinquedo infantil que independe de classe social e de geração. Um objeto arquetípico. A representação de um meio de transporte aquático. Um mar de barcos. Em um segundo momento, lembramos que o barco anda na água e que o papel se desfaz na água. O barquinho em cena indica o prazo de validade, o tempo de uso, mas não de vida. Uso porque o corpo-memória se deteriora, mas a vida é transformada pela memória do filho e o trabalho material do artista.
Um recurso de efeito afetivo intenso é a subida à cena de uma criança. Um corpinho infantil que adentra a cena, tímido, mas pleno de vida, como é o corpo da criança. Ednei mostra como dobrar a folha de papel e torná-la um barco e isso é uma dimensão coreográfica a mais: o que, na vida cotidiana, é um trabalho manual corriqueiro, na cena vira gesto. As mãos do pai que, outrora, ensinaram a construir barcos, agora estão na mão do performer dançando com as mãos diante da criança.

Futuro
Se essa doença tem a aparência da perda do passado, a apresentação de 25 de setembro de 2025 parece apontar o futuro: o trabalho aponta para um desenvolvimento, que ele merece. Está em progresso a construção do espetáculo. O espectador vê a quantidade de esforço artesanal na produção daquele mar de barquinhos de papel, por isso é necessário que a cena se prolongue ainda no processo de criação de “O Invisível”. Por exemplo, os movimentos iniciais de deslize sobre o solo, as espirais que fazem os barcos voarem, os gestuais com os dedos e mãos, tudo isso ainda não foi explorado ao limite, Ednei pode dar ao espectador mais corpo, mais forma, para que essa quantidade de afeto tenha um veículo para chegar à plateia. Vida longa ao “Invisível”, que ele se torne cada vez mais concreto em sua próxima temporada.
Ficha técnica
Ficha técnica
Direção, Coreografia e Interpretação: Edney D’Conti
Músico: Matheus Queiroz
Montagem de luz: Kaylane Desidério e Zé Alex
Produção Executiva: Andreia Pimentel – Abacateiro Produções Ilimitadas e Saulo Eduardo – Instituto Impacto Criativo
Operação de Luz: Kaylane Desidério
Operação de som: Saulo Eduardo
Producão: Abacateiro Produções
Realização: Companhia de Dança D'Conti
Apoio: Programa Funarte Aberta
Fotos: Ditto Leite