Está em cartaz em Copacabana um espetáculo fruto do traumático processo pandêmico de 2020-21. Um trauma que nós, artistas, não conseguimos mensurar completamente ainda, mas que produz sequelas cênicas interessantes. Trata-se de “Hip-Hop Blues: Espólio das Águas”, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. A coluna “Dança além das fronteiras” se interessa pelas reverberações do corpo em cena e foi ao encontro dessa materialidade.

A chuva, o rio, a memória
Chove no palco do Sesc. Do “urdimento” jorra uma água pulverizada e, imediatamente, o corpo do espectador entra em relação com as águas poéticas dos rios de São Paulo que transbordaram, baixaram e deixaram os despojos dessa terra super populada e super explorada.
Em cena, como é próprio das dramaturgias do Núcleo, estão depoimentos em formatos de música cantada-falada-tocada-remixada, de dança, de respiração, de imagem. É uma cena bastante heterogênea, feita de diversos recortes justapostos. O espetáculo resulta uma grande enxurrada, um rio cujo fluxo vai ligando elementos bastante singulares, dialogando, dessa maneira, com o processo histórico de países periféricos (periféricos, do ponto de vista do Capital), como o Brasil.
À vista disso, o momento pregnante do espetáculo, aquele que funciona como fotografia do conjunto, é um dos mais discretos: o elenco dança sob focos bastante recortados e finos, que iluminam apenas partes dos membros dos corpos. Esses fragmentos dançantes são como detritos no fluxo do rio. São restos do que ficou com o fim da inundação. As imagens que a luz fragmenta tornam-se a abstração do processo cênico. O Bartolomeu constrói uma cena processual, retalhada, dentro da lógica do fluxo do espetáculo. A imagem fixa no cérebro do espectador.
Os membros, as mercadorias
Em dado momento, é dito que o processo tem início com o estudo de “Os sete pecados mortais dos pequenos burgueses”, de Bertolt Brecht. É interessante falar dos rios paulistas a partir dessa obra porque essa opereta de Brecht/Weil já parte de um terreno imaginário, de um espaço “fantasmado”, qual seja, a região do rio Mississipi, nos Estados Unidos, país no qual Brecht só vai morar depois da escrita dessa peça. Isso quer dizer que se trata de um espaço objetificado pelo autor, que cabe em suas recentes reflexões marxistas. Na ocasião da criação da opereta, em 1933, não havia meia década que Brecht havia se assumido leitor aprofundado de Marx. Escolher os Estados Unidos, símbolo de um capitalismo emergente, é um bom terreno para experimentar a mercantilização de um personagem por outro.
Interessa aqui perceber essa dinâmica do corpo humano conduzido ao corpo mercantil (porque ele emerge desse espólio das águas, no espetáculo). Esse é o grande pecado capital(ista): a transformação do humano em mercadoria pelo próprio humano.
O meio pelo qual o Bartolomeu corporaliza a resistência a todo esse sistema é a forma-depoimento, portanto, é recorrente um corpo unido a um pedestal com microfone. Tal relação humano-objeto impõe certas regras, como, por exemplo, alguma imobilidade no eixo do corpo, que fica ao longo do microfone. Provavelmente por isso, muito do que se percebe de dança aparece de forma mais evidente nas extremidades, ao invés do tronco. Os membros estão mais liberados do verbo e chamam atenção para si. Vejamos.
Os braços de Roberta Estrela D’alva se expandem e se retraem em relação a seu tronco, se retorcendo como se tentassem arrancar algo tanto do corpo, quanto do espaço. As mãos de Cristiano Meirelles combinam o vogue hands com memórias de violência policial, evidenciando as articulações. Os olhos de Dani Nega parecem receber circuitos elétricos em seus movimentos nervosos. Os dedos de Luaa Gabanini redimensionam o espaço de cena em uma coreografia que aponta as retas do palco. A presença dos corpos de Eugenio Lima e Daniel Oliva, na aparelhagem do DJ e na guitarra, também tem uma dimensão coreográfica, sempre na relação com esses outros corpos dançantes.
Todos esses fragmentos corporais remetem à violência do espaço urbano neoliberal. Os membros parecem gritar de revolta com a desumanização e a coisificação do humano. São corpos meio máquinas, às vezes armas, às vezes escudos.

Traduções
Um outro recurso que emerge nesses corpos se encontra na relação da fala e a escuta e, aqui, chamo de “tradução”. Enquanto Luaa gesticula, Dani supõe o que passa na cabeça de uma atriz branca contrariada e começa um jorro de palavra, na relação com um jorro gestual da parceira de cena. Estrela D’alva, por sua vez, ouve a voz de Nêgo Bispo e, ao longo de sua fala, o corpo da performer mistura tanto gestos mais tradicionais da dança (favorecidos por seu corpo longilíneo), quanto um gestual mais duro, que a tradição europeia consideraria “menos belo”. Ali está uma dança-luta entre a colonização e os corpos coletivos afro-diaspóricos.
Essa escuta aponta para todo espaço sonoro, que é parte fundamental desse espetáculo, bem como a iluminação e os video mappings. São coreografias em outras materialidades. Essa indicação do corpo para o espaço e para a luz, está diretamente relacionada à apropriação do termo “blues” nessa cena. Enquanto o blues oitocentista estadunidense revela sons e temperamentos igbo, ou das savanas; do blues-hip-hop do Bartolomeu emergem ancestralidades de inúmeros cantos do mundo. Há um amálgama de materialidades de naturezas bastante distintas, porém molhadas por essa água que jorra do grid.
Um espaço de “tradução” a mais é o telão, onde os corpos virtuais de Adeleke Adisaogun Ajiyobiojo, Aretha Sadick e Zahy Guajajara dançam em escala expandida diante dos corpos de carne, osso e sangue dos performers.
O espetáculo fica em cartaz até o dia 16 de novembro e vale a pena ser conferido.
Ficha técnica
Direção: Claudia Schapira
Dramaturgia: Claudia Schapira e elenco
Atores/Atrizes-MC's e Dramaturgia: Cristiano Meirelles, Dani Nega, Eugênio Lima, Luaa Gabanini e Roberta Estrela D'Alva
Músico: Daniel Oliva (Guitarra)
Assistência de Direção: Rafa Penteado
Cenografia: Marisa Bentivegna
Desenho de Luz: Matheus Brant
Operação de Luz: Letícia Nanni e Matheus Brant
Criação de Vídeo: Vic von Poser
Operação de Vídeo: Vic von Poser e Andressa Núbia
Técnico de Som: João de Souza Neto, Clevinho Souza e Nick Guaraná
Cenotécnico e Assistente de Palco: Wanderley Wagner da Silva
Figurinos: Claudia Schapira
Direção de Produção: Mariza Dantas
Produção Executiva: Thais Cris
Programação Visual e Desenhos: Murilo Thaveira
Coordenação das Redes Sociais: Agência Mugô
Relações Públicas: Naira Fernandes
Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê Comunicação
Fotos de Divulgação: Sérgio Silva
SERVIÇO
“HIP-HOP BLUES - ESPÓLIO DAS ÁGUAS”
Temporada: 23 de outubro a 16 de novembro de 2025
Horário: Quinta-feira a domingo, às 20h30
Ingressos: R$ 10 (associado do Sesc), R$ 15 (meia-entrada), R$ 30 (inteira)
Local: Mezanino do Sesc Copacabana
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 - Copacabana - Rio de Janeiro
Informações: (21) 3180-5226
Bilheteria - Horário de funcionamento:
Terça a sexta-feira - das 9h às 20h;
Sábados, domingos e feriados - das 14h às 20h
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 120 minutos
Instagram: @nucleobartolomeu