Chegou o dia que todo mundo postou fotos com o pai e legendas dignas de novela mexicana: “meu exemplo”, “meu super-homem”, “meu tudo”. Eu quase postei também. Uma foto de uma nuvem. Ou de um sinal de fumaça. Algo na mesma vibe “difícil de localizar”.
Ele cantava para eu dormir. Me levava para a escola e era quem empurrava o balanço no parquinho. Ele me chamava de “coisa linda do papai”, como se palavras bastassem pra sustentar o título depois que ele partiu. Ele era meu herói - desses de carne e osso. Até que, um dia, o herói tirou a capa. E sumiu. Foi embora como quem fecha um livro pela metade e esquece na estante: sem vontade de saber o final, sem remorso pela história interrompida.
Ficou o eco da ausência em dias comuns. Porque a saudade não aparece só no Dia dos Pais - ela bate ponto quando ouço uma música que ele cantava desafinado, quando passo em frente à banca onde ele comprava figurinhas comigo, quando alguém pergunta “e seu pai, tá bem?” com a inocência de quem não imagina que a resposta é uma incógnita.
A parte mais dolorosa? É que ele era bom nisso. Em ser pai. Tinha o jeito, o sorriso, o tempo. Mas cansou. Ou desistiu. Ou sei lá. Não deixou manual nem bilhete. Só um silêncio que, ironicamente, fala demais. É estranho falar de quem ainda está vivo como se fosse fantasma. Mas tem gente que some tão fundo que até a lembrança vira sussurro.
Às vezes penso que ele pode aparecer um dia, todo arrependido, com um “e aí, filha?”. E eu? Talvez oferecesse café. Talvez sarcasmo. Talvez os dois.
No fim, aprendi a ser filha sem pai. A sobreviver ao segundo domingo de agosto sem precisar fingir comercial de margarina. Porque o amor, quando some sem explicação, não vira ódio - vira maturidade.
Feliz Dia dos Pais, então. Pros que ficaram. Pros que cuidam. Pros que voltam.
E pros que foram embora… só boa sorte mesmo.
Até o próximo texto!
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