Tem gente que acha que impor limites é grosseria. Uma falha de caráter. Um defeito de fábrica. Como se maturidade fosse medir o quanto aguentamos sem reclamar, e não o quanto aprendemos a proteger o próprio fôlego. Passei anos acreditando nisso: que ser querida significava ceder, calar e dar conta. O pacote completo da “pessoa boa”.
“Tu é tão boa”, diziam. E eu achava bonito. Até perceber que, no fundo, “boa” era só um eufemismo para “disponível demais”. Boa pra resolver, boa pra substituir, boa pra preencher a ausência dos outros. Um tipo de bondade feita de horas extras emocionais.
Até que um dia eu simplesmente decidi deixar de ser pau pra toda obra. Não por drama, tampouco por revolução interna. Apenas porque descobri que ninguém aguenta ser ferramenta universal por tempo indeterminado. Madeira também racha. Cabo também lasca. E obra demais consome até o melhor martelo.
Quando a gente impõe limites, o mundo dá um pulo pra trás. As pessoas se assustam como se tivessem encontrado uma placa de “proibido estacionar” onde antes era um terreno baldio. Costumavam entrar sem bater, mexer nas gavetas, pedir mais do que devolviam. Aí, de repente, encontram uma porta fechada. Uma frase curta. Um “hoje não posso”. Um “isso não é problema meu”. Inaceitável, aparentemente.
Mas impor limites não é erguer muros; é só instalar cercas para que o jardim não seja invadido por quem confunde gentileza com disponibilidade eterna. É um gesto de higiene emocional. É um filtro. E, como todo filtro bom, ele retém o que faz mal e deixa passar o que realmente merece ficar.
E o mais extraordinário é que, quando a gente aprende a dizer não, sobra espaço. Sobra tempo. Sobra vida. E, com uma clareza cirúrgica, percebemos quem estava por perto pela companhia e quem estava apenas pelo serviço.
No final das contas, impor limites é um ato de amor. Não pelos outros, mas por nós mesmas. E, sinceramente, esse é o amor que mais faz falta quando tudo começa a desandar.
Até o próximo texto!
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