A dança-brincante-teatro-show de Maria Eugênia Tita pousou no Armazém da Utopia nesse novembro e trouxe pensamentos sobre o que está embaixo e o que está no alto.
(Des)andar
“Tudo começou a desandar quando minha filha começou a andar”. É mais ou menos com essas palavras que se instaura oficialmente a cena. Esse jogo de palavras, próprio da poesia popular improvisada, ilumina um “andar” num caminho contrário. “Desandar” é sair da trilha já indicada. O espetáculo começa vislumbrando outros “andares”.
Ao mesmo tempo, “andar” remete ao chão, ao pé. Ao longo de todo o tempo de cena o pé terá um lugar de destaque. As danças tradicionais da cultura popular exploram diversos contatos do pé com o chão e Tita parece pesquisar, no presente da cena, novas articulações na anatomia dos pés. “Trupés”, pisadas, saltos, arrastadas, tudo indica o contato com a terra.
Uma das coisas mais bonitas nas danças tradicionais seja a revalorização do pé. Com ele, o peso do corpo, a matéria concreta, é revelado. Não são danças metafísicas, concebidas para construir imagens de um ideal humano. Trata-se de trazer de volta a terra, sem recalcar o processo histórico da colonização.
Portanto, o contato com o chão, o apoio para pés e mãos, o arrastar do corpo no solo. Essa característica das danças tradicionais do Brasil cria uma dialética com o título do espetáculo, que remete a um animal que voa. Há, portanto o voo, mas sempre na referência da terra. Um vetor para o alto, não vive sem o que aponta para o chão. A tradição do pensamento ocidental se baseia na hierarquia da ideia sobre a matéria. A cabeça contém o pensamento e a palavra que sai com o som. Estão acima do ventre e do baixo ventre, onde a materialidade toma forma na digestão da comida e no sexo. Só lá embaixo vem o pé. Ele é entendido como sujo, pisa o chão, está em oposição à ideia e ao verbo.

(Des)voar
Em “Pássará”, crianças e adultos estão juntos, como se para o “brincante” não houvesse separação etária. A dança não contém brincadeiras, mas é a própria brincadeira coletiva. Dessa maneira, há um encantamento no espaço cotidiano. Manter a brincadeira no espaço compreendido como “vida real” configura uma luta porque a noção de realidade vem sendo forjada há séculos, baseada na produtividade empresarial, na burocratização do cérebro e da alma e no individualismo neoliberal. A brincadeira é sempre coletiva, sempre pede escuta, doação e percepção. Em “perceber” pode-se ouvir “receber”, quer dizer, uma doação mútua.
Mas não apenas de sorrisos e luzes é feita a cena, há dor e manchas. Isso se dá, justamente, pelo diálogo com as danças tradicionais da cultura popular, onde o medo, a guerra, a lágrima, estão justapostos à gargalhada e ao compartilhamento. Em “Pássará”, é quando a perda aparece que o voo pode se dar.
Quando a mãe precisa perder o domínio sobre a locomoção do bebê, permitindo a caminhada e, assim, o futuro voo para o mundo, que o corpo de Tita, como uma seiva que se desloca pelo caule, permite que os braços e mãos ganhem tanta expressividade quanto pernas e pés.
Essa dança dos braços está ligada ao início da manifestação cênica, quando Tita parece sair de um ovo e ir trabalhando as articulações do corpo inteiro, misturando as danças cênicas tradicionais com as danças urbanas contemporâneas.
Os braços ganham protagonismo porque o substantivo vira verbo, o som "pássara" torna-se "passará". Os primeiros passos também passarão rápido. A vida passará rápido.

Parcerias
Cimara Fróis está em cena com Tita e comanda instrumentos, canto, dança e texto também. A paisagem sonora é composta por sanfona, teclado, pandeiro, caixa do divino e, provavelmente, outros instrumentos que fogem à memória agora. Sua presença é fundamental para a noção de compartilhamento na qual as culturas populares se baseiam. Cimara mantém o tempo todo a “corda” tensionada entre palco a plateia.
Os figurinos trazem tecidos de fios e fibras naturais, evidentemente. Há peças em algodão branco com rendas e passamanarias, há peças com retalhos e bordados coloridos. O espaço cênico inicia com um grande emaranhado de palha no chão, como um ninho. No dia que assisti, havia muitas crianças brincando sobre a palha, remetendo, imediatamente, a filhotes de passarinho piando, antes de voar. A iluminação brinca com o calor solar e o frio sombrio.
Destaque para a grande saia usada por um grupo de mulheres escolhidas na plateia, em um momento bastante feminino, maternal. Um grande útero.
Armazém da Utopia
A escolha do espaço de apresentação transforma a percepção do espectador. O Armazém da Utopia contém esses dois elementos de seu nome. De um lado, um antigo local de trocas, ainda que mercantis, feitas pelas mãos da classe trabalhadora, um arquétipo do Rio de Janeiro (da e do) capital. De outro, a utopia. Essa palavra não é sinônimo de ilusão, como quer o léxico capitalista. Trata-se de um horizonte na direção do qual nos dirigimos e, ainda que (possivelmente) inatingível, deixa um rastro de ações e posicionamentos fundamentais para a transformação do mundo em um lugar menos desigual.
“Pássará”, dentro do Armazém, às margens da Baía de Guanabara, dialoga necessariamente com as ações culturais desenvolvidas ali dentro. Dialoga com a concretude do chão e com a utopia do voo.
Ficha técnica
Direção e Concepção: Maria Eugenia Tita
Elenco: Maria Eugenia Tita e Cimara Fróis
Direção de dramaturgia: Gustavo Mirangel
Orientação e pesquisa de movimento: Mauricio Florez
Figurino: Acervo Instituto Brincante | Eveline Borges
Desenho de luz: Lica Barros
Desenho de som: Igor Bonfim
Comunicação e design gráfico: Danielle Simões