A Virada
Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora
Virar o ano não é virar a vida. É virar a página, e páginas viradas não apagam o que veio antes: apenas seguem adiante, com anotações à margem, marcas de uso, frases que ainda pedem releitura. A virada de ano fala menos de recomeços grandiosos e mais dessa continuidade silenciosa que a gente insiste em subestimar.
À meia-noite, fazemos um acordo simbólico com o tempo. Contamos os segundos, brindamos, nos abraçamos e, por alguns instantes, acreditamos que algo essencial mudou. No dia seguinte, porém, o café tem o mesmo gosto, o corpo carrega os mesmos cansaços, os problemas não se sentem intimidados pelos fogos e a vida segue sem efeitos especiais.
Há uma exaustão própria desse período: o de precisar estar bem. A virada cobra entusiasmo, esperança, planos claros. Pouco se fala sobre quem chega até ali apenas resistindo. E resistir, em muitos anos, já foi mais do que suficiente.
Amadurecer talvez seja compreender que as viradas importantes raramente acontecem no relógio. Elas acontecem quando paramos de insistir no que nos diminui, quando aprendemos a encerrar ciclos sem discursos e a iniciar outros sem culpa. Nem todo ano será extraordinário — alguns serão apenas honestos. E isso já é muito.
Que o novo ano não nos exija pressa nem promessas barulhentas. Que ele nos permita pausas, escolhas possíveis e um pouco mais de gentileza com aquilo que ainda não conseguimos mudar. E que, quando dezembro voltar, possamos dizer, com serenidade: não resolvemos tudo, não fomos impecáveis, mas seguimos. Virar a página, afinal, já é um gesto de coragem.
Até o próximo texto!
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