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Brasil em "modo replay"

Menina Aleatória, Por Anna Domingues, Escritora

Em 16/06/2025 às 09:08:51

Estive em São Paulo e resolvi ir ao CCBB, sem grandes pretensões, desses dias em que você só quer sair de casa para lembrar que o mundo existe. Entrei na exposição “Fullgás - Artes visuais e anos 1980 no Brasil” com a alma em modo avião, mas bastaram dois passos para ser tragada por um país que, juro, parece não ter ido embora.

O título, emprestado de um clássico da Marina Lima, já indica o tom: cores vibrantes, texturas malucas, letras garrafais, corpo e alma. Ao cruzar o limiar até a rotunda, dei de cara com o balão colorido de Paulo Paes: frágil, efêmero e, ainda assim, imenso - metáfora perfeita para um tempo de transição entre ditadura e democracia.

Mais para frente havia uma instalação com uma banca de jornal lotada de capas antigas, com aquelas fontes escandalosas: inflação, eleições, crise, corrupção. Não me contive - fotografei uma manchete de 1987 e mandei pra uma amiga com a legenda “acabaram de publicar isso hoje ou foi só déjà-vu?”.

Não é exagero, as manchetes pareciam copiadas do Twitter de hoje. Estava tudo ali: a esperança recém-nascida da redemocratização, a arte como grito, o corpo como manifesto, a cultura popular sendo levada a sério - finalmente.

E sabe do que me dei conta? Que o Brasil ainda não saiu dos anos 80.

Mudamos a trilha sonora, trocamos o videocassete pelo streaming, substituímos o disco pelo Spotify, as revistas pelo feed das redes sociais, mas as inquietações continuam praticamente as mesmas. A desigualdade segue firme e forte, agora com Wi-Fi. A violência não se aposentou. As minorias ainda precisam gritar para serem ouvidas - só que agora pelo Instagram.

A diferença é que, naquela época, tudo parecia novo. Hoje, parece remixado. Como se a gente estivesse rodando em looping, um eterno revival. Mas não é só pessimismo. A exposição também me lembrou de uma coisa bonita: a arte nunca parou de dizer. Nunca parou de tentar. Os artistas dos anos 80 se jogavam com fullgás, sem medo do exagero, da emoção, da crítica com neon. E hoje, mesmo com o algoritmo podando o alcance, ainda tem gente tentando colorir esse país de novo.


Saí do CCBB com uma nostalgia que não era só dos anos 80 - uma época em que eu sequer era nascida - mas de quando se acreditava que dava pra mudar as coisas só com uma música, um cartaz, uma performance na rua. E talvez ainda dê. Mas agora a gente precisa de mais persistência, porque o Brasil continua teimando em não aprender com o próprio passado.

No fundo, talvez fullgás não seja só um nome bonito emprestado da Marina. Talvez seja um lembrete: ou a gente vai com tudo, ou fica parado assistindo o retrocesso de camarote.

E cá entre nós, se é pra andar em círculos, que seja dançando. Como nos anos 80.

Até o próximo texto!

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