Eu estava num café quando ouvi duas amigas conversando na mesa ao lado. Uma delas dizia, com uma convicção quase cansada:
— Eu sou difícil. Sempre fui.
A outra concordou com um aceno solene de quem confirma um diagnóstico. Fiquei pensando no peso daquela afirmação. “Sou difícil.” Dita assim, não soa como constatação, soa como sentença. Como se amar alguém fosse um teste de resistência, um esforço que poucos estariam dispostos, ou aptos, a sustentar.
Mas a verdade, que ninguém naquela mesa disse, é bem menos dramática e muito mais incômoda: Talvez ela não seja difícil, talvez esteja apenas tentando florescer em terreno árido.
A gente aprende cedo — e de maneira profundamente equivocada — que, quando algo falha nas relações humanas, a origem do problema está em nós. Se não deu certo, você é complicada. Se não foi compreendida, exige demais. Se o outro recuou, você exagerou. É curioso observar como o fracasso afetivo costuma encontrar um culpado conveniente: quem permaneceu.
A “pessoa certa” não interpreta intensidade como excesso, nem sensibilidade como fragilidade. Não reduz honestidade emocional a dramatização, tampouco se intimida diante de quem sente com inteireza. Para quem deseja permanecer, você não é um enigma a ser decifrado: é linguagem compreendida, é escolha reiterada.
O problema é que, por vezes, insistimos em bibliotecas que não nos pertencem.
E, então, passamos a nos perceber como complexas, excessivas, difíceis quando, na verdade, estamos apenas sendo lidas por quem nunca teve interesse real pela leitura.
No fim, talvez a constatação seja menos sobre quem você é e mais sobre onde e com quem você tem tentado ser. Você não é difícil de ser amada. Está, no máximo, procurando no lugar errado ou, em alguma medida mais sutil e perigosa, permitindo ser encontrada por quem nunca soube, de fato, procurar.
Até o próximo texto!
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