Não sei exatamente quando a leitura virou evento, mas hoje ela tem data, hora, mapa do local e pulseirinha de acesso! Nessa semana fui à Bienal do Livro e é engraçado que a gente entra achando que vai dar só uma voltinha, e quando vê já está carregando sacola, colecionando marcadores de página e broches personalizados, fazendo amizade na fila, pegando fila pra ouvir alguém falar sobre um livro que a gente nem sabia que queria ler. É um tipo de alegria mansa, feita de páginas, vozes e descobertas.
A Bienal é uma espécie de carnaval silencioso, com mais papel, menos purpurina. Milhares de pessoas se espremendo entre estandes como se a literatura estivesse em promoção - e, às vezes, está mesmo. Promoção no sentido mais literal: compre dois, leve três. Mas também no outro: vender a ideia de que quem lê é especial, elevado, fora do padrão. Como se um livro nas mãos te colocasse num pedestal acima da multidão. A multidão que está lendo o mesmo livro que você, aliás.
A gente romantiza a leitura - e com razão. Ler transforma, desloca, machuca e cura. Mas tem horas em que parece que estamos mais interessados em parecer leitores do que em ser leitores. É uma leitura performática, meio ansiosa, meio enfeitada. A Bienal virou o Rock in Rio da literatura: tem fila pra entrar, fila pra foto com o autor, fila pra comprar, fila pra sair. E no meio disso tudo, o livro vira coadjuvante do próprio espetáculo.
Mas não vou mentir: eu gosto.
Gosto de ver jovens emocionados ao encontrar a autora da saga que salvou sua adolescência. Gosto de ver criança puxando pai pela mão dizendo “esse aqui, esse aqui!”. Gosto de ouvir gente discutindo se o final do romance foi justo ou cruel. A Bienal é uma bagunça bonita. E, no meio dessa bagunça, há pequenas epifanias. Pessoas descobrindo que gostam de poesia. Homens de terno lendo crônicas em pé, sem pressa. Meninas abrindo o primeiro capítulo ali mesmo, no corredor. A mãe cansada sentada no chão, lendo para o filho que ainda nem sabe ler, mas já reconhece o aconchego de uma narrativa.
E aí eu me dou conta: a leitura não é um hábito, é uma memória. A gente lê pra lembrar de quem é, ou de quem gostaria de ser. E a Bienal, com toda sua agitação, é só um lembrete coletivo de que ainda acreditamos no poder das palavras.
Claro que tem o lado espetáculo. Tem stand que parece loja de shopping, tem autor virando influencer, tem alguns lançamentos que foram esperados com a mesma ansiedade que finais de temporada da Netflix. Mas nada disso me incomoda tanto. Se é isso que atrai gente pro mundo dos livros, que venha. Porque uma vez que você entra, mesmo que pela capa bonita ou pelo booktok do momento, alguma coisa fica. E o bom leitor, mais cedo ou mais tarde, aparece.
A Bienal é confusa, cheia, barulhenta. Mas também é um lugar de encontros. Com livros, com pessoas, consigo mesma. É onde você esbarra em histórias que nem sabia que precisava. Onde descobre que literatura não mora só nos clássicos, mas também na fila da pipoca, no riso de uma conversa ao lado, na dedicatória tímida de um autor iniciante.
Volto pra casa com livros que talvez fiquem um tempo na estante antes de serem lidos. Mas não importa. A leitura começa muito antes da primeira página. Começa no desejo. E disso, a Bienal está cheia.
Até o próximo texto!
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